Nem todas as ervas são iguais: 5 aspectos importantes na hora de comprar chás e ervas desidratadas

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Comparação de amostras de Cavalinha (Equisetum arvense L.). Foto: Nath Frutuoso

Você sabe o que é importante na hora de comprar chás e ervas desidratadas?

Nas prateleiras de drogarias, casas de chás, supermercados e bancas de mercados municipais, podemos encontrar uma variedade de ervas, das medicinais a especiarias (usadas para temperos).

“A maioria das plantas medicinais comercializadas – seja in natura ou embalada –apresenta-se fora do padrão, portanto o produto utilizado pela população, principalmente urbana, não tem asseguradas suas propriedades terapêuticas e aromáticas preconizadas e/ou está contaminada por impurezas (terra, areia, dejetos animais, outras espécies vegetais, coliformes fecais, etc.)”, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SCHEFFER,, et. al., 2006: 10).

Pelo rótulo e embalagem, é possível averiguar alguns sinais de qualidade da matéria prima e seriedade do fornecedor. 

A qualidade, do ponto de vista farmacêutico, é a adequação de um determinado bem a uma finalidade preestabelecida; essa qualidade é determinada pelas necessidades do uso e características do produto e do processo (SIMÕES, et. al., 2017: 83). Para o que é chamado de preparações galênicas simples – as tinturas, extratos fluidos (como xaropes) – são utilizados como matéria prima as plantas desidratadas.

 

5 aspectos importantes na hora de comprar chás e ervas desidratadas

Vamos destacar alguns aspectos importantes para auxiliar a identificação da qualidade em plantas desidratadas, considerando a finalidade do uso dessas ervas: produção caseira de chás, tinturas, xaropes e cosméticos, ou seja, preparações naturais com finalidade terapêutica.

É importante lembrar: uma planta desidratada e armazenada em condições inadequadas pode não ter eficácia, e, inclusive, trazer risco à saúde de quem irá consumi-la.

Aqui na Botica da Morgana nem todas as plantas que usamos para fazer as alquimias são cultivadas em nosso jardim; algumas das matérias primas são adquiridas em fornecedores que atendam as exigências que considero essenciais para definir a boa qualidade de uma matéria prima.

 

1. Qual a embalagem em que a planta está armazenada quando é  exposta para a venda?

Essa pergunta é feita por dois motivos.

Um deles se refere à preservação da matéria prima; é preciso considerar que a exposição à luz degrada os princípios ativos presentes na planta. Ou seja, o tipo de embalagem que acondiciona a amostra pode comprometer a quantidade de ativos terapêuticos que serão preservados.

Uma das amostras de Cavalinha da foto foi comprada em uma drogaria, e a outra, é da nossa produção. A amostra da mão direita foi comercializada em um saco plástico transparente, ficando exposta à luz, perdendo a cor, aroma e, provavelmente, os ativos terapêuticos.

Em mercados municipais, às vezes, as plantas sequer vem embaladas, ficando sujeitas à contaminação, além da exposição à luz.

O processo de secagem da planta também interfere na perda de cor, aroma e ativos. Se for informado no rótulo o tipo de secagem pela qual a planta passou, isso também ajudará a saber se a amostra tem boa qualidade. As plantas não devem ser secadas ao sol ou em temperaturas altas. Aqui no fitolab, elas são secas em um processo de desumidificação sem fonte de calor. Há mais informações sobre secagem no post anterior.

Várias espécies podem reabsorver a umidade do ar, portanto, a embalagem também deve ter uma boa vedação, para cumprir a função de preservação da planta.

Outro fator a se considerar, e não menos importante, é se você vai gerar lixo adquirindo aquela matéria prima. Eu sempre procuro optar por produtos que venham em embalagens que posso reutilizar em outro momento.

Algumas pessoas compram ervas em lojas que vendem produtos a granel, o que é sustentável, porém, nem sempre essas plantas têm boa qualidade, devido à maneira como estão armazenadas (geralmente em potes transparentes). Além disso, quando se abre o pote várias vezes para retirar frações do produto, as ervas ficam expostas à umidade e contaminantes.

 

2. É informado no rótulo o tipo de cultivo daquela planta? É de origem orgânica, de agricultura convencional ou silvestre? Há como garantir essa informação?

O motivo é claro: não é possível trazer a cura ou bem estar por meio de algo que foi envenenado.

Geralmente, o que é cultivado de maneira orgânica tem um custo financeiro mais elevado se comparado ao cultivo tradicional. Assim como na linha de pensamento em relação aos cosméticos, é preciso colocar na balança: o que se investe em cuidado e prevenção, alimentando-se e cuidando da saúde e beleza com bons alimentos e produtos, se economiza em gastos com doenças geradas a partir do uso de substâncias tóxicas.

Escrevi sobre a nossa maneira de cultivar as plantas aqui na Botica, e quais fatores podem interferir na qualidade delas, nesse link.

Quando a planta é de origem silvestre, ou seja, é coletada, e não colhida (se colhe quando se plantou, se coleta quando é silvestre), é interessante saber em que condições isso foi feito:

  • se a espécie estava próxima a estradas, esgotos
  • se foi feito com consciência, com atenção à questão do extrativismo
  • se houve cuidado para com a planta. Por exemplo: cascas e entrecascas de árvores devem ser retiradas dos galhos, e não do caule.

 

3. Identificação da espécie, informações sobre validade e demais ingredientes.

Saber o nome científico é o tipo de conhecimento que traz segurança, quando você for utilizar plantas para fins medicinais. Assim, é possível pesquisar os efeitos terapêuticos, contraindicações e o que mais for preciso saber sobre a planta.

Em relação à validade de ervas desidratas, geralmente, 2 anos é o tempo em que elas mantêm preservados os seus princípios ativos, se bem armazenadas.

Quando eu falo sobre demais ingredientes, me refiro à conservantes sintéticos ou aromatizantes.

Sim, há marcas que adicionam aromatizantes em seus chás. Esses dois aditivos são totalmente desnecessários em amostras de plantas que foram bem processadas e armazenadas, pois elas mantêm seu sabor e aroma, e não terão umidade o suficiente para que haja degradação de princípios ativos ou para que se desenvolva um ambiente favorável para fungos e bactérias.

 

4. A erva é vendida de que forma?

Sabia que quando as ervas são desintegradas para se transformar em pó, perdem parte de seus princípios ativos?

Os saquinhos de chá, por esse motivo, podem ter menor efeito terapêutico, se comparados ao chá feito por infusão ou decocção, a partir de uma erva que não passou por processo de moagem.

Os óleos essenciais são os responsáveis por trazer os efeitos terapêuticos e o aroma às plantas. Essas substâncias aromáticas são “frágeis”, voláteis, e sofrem degradação quando a erva é desintegrada, principalmente nas amostras de flores e folhas. Por esse motivo, pode ser comum encontrar aromatizantes em chás de saquinhos, pois as ervas perderam o seu aroma no momento em que foram moídas.

 

5. Quem está vendendo?

Com o consumo crescente de produtos de origem natural, muitas empresas viram nisso uma oportunidade de negócios. Já vi várias marcas, principalmente da área cosmética, que trazem na embalagem do produto informações sobre os ativos naturais ali presentes, para convencer o consumidor de que se trata de algo natural.

Mas basta olhar o rótulo e pesquisar o que são aqueles ingredientes presentes na fórmula, para se descobrir que o natural presente ali é quase insignificante, diante das substâncias tóxicas, também presentes.

Os casos que citei, sobre o uso de aromatizantes e conservantes nos chás, podem indicar que o fornecedor não tem finalidades terapêuticas com aquele chá, ou que é mais uma marca Greenwashingou seja, empresas que “lavam de verde” seus produtos, simulando ser natural o que vendem. Fiquemos atentos com os produtos que consumimos, principalmente quando estes estão relacionados com a saúde, beleza e o bem estar.

E para você, o que é importante na hora de obter as plantas para a sua botica caseira?

 

Bibliografia:

MELO, Joabe Gomes de et al . Qualidade de produtos a base de plantas medicinais comercializados no Brasil: castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum L.), capim-limão (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf ) e centela (Centella asiatica (L.) Urban). Acta Bot. Bras.,  São Paulo ,  v. 21, n. 1, p. 27-36,  Mar.  2007 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-33062007000100004&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  24  July  2018.  http://dx.doi.org/10.1590/S0102-33062007000100004.

SCHEFFER, et. al. Boas práticas agrícolas (BPA) de plantas medicinais, aromáticas e condimentares. Brasília: MAPA/SDC, 2006.

SIMÕES, C. M. , et al. Farmacognosia: do produto natural ao medicamento. Porto Alegre: Artmed, 2017.

 

1 comentário

  1. […] Verifique as condições de cultivo (como exposição à contaminação e uso de agrotóxicos), secagem e armazenamento das plantas, antes de utilizá-las para finalidades medicinais. Falamos um pouco sobre isso neste post. […]

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